Memorial Kiss

De longe, vejo um edifício alinhado com aquela calçada estreita da Rua dos Andradas. Vejo luz na fachada, pessoas entrando e saindo livremente, passando em meio a objetos que se mostram turvos. Tenho curiosidade de entrar.

As portas estão abertas, tenho duas grandes opções. Uma linha de luz que sai da água ilumina uma parede. Há 242 nomes, é como se me olhassem naquele momento. Estou coberto, rodeado por um jardim, duas árvores, ar puro. No meio da cidade? Nesta rua? Em frente a garagem do Supermercado? De fato, é algo que surpreende. Vejo uma loja, pessoas sentadas tomando um café, salas
envidraçadas para um jardim. Tem uma feirinha acontecendo ali embaixo; o que é aquilo? Seria um auditório? É leve. Brilham vídeos nas paredes.

Circulo pela feirinha... Poderia ser um culto, uma reunião, um teatro, um jantar. Vou até o fundo, onde um moço toca gaita e volto. A vista emociona: aquelas árvores, aqueles nomes, a luz vindo de cima – dá até vontade de chorar. Vou ver o que mais tem por aí, depois quero tomar um café. Tem algo lá em cima, vou pela escada. Tem água embaixo da escada. É o Memorial. Duas portas grandes me convidam a entrar. Caminho pelo corredor de vidro, é tudo branco. Contrasta com o que aconteceu aqui; aos poucos vou entendendo a gravidade dos fatos, a dor das famílias. Conheço um pouco mais sobre aqueles jovens. Vou até a sala de vídeo. Dói. Há mensagens de esperança. Saio por outra porta, bem no meio da praça. Tem um mural gigante ali pedindo justiça.

É bonito. Têm pessoas ali atrás.  Vou voltar para o café, agora pela rampa. Percebo que eu poderia ter entrado por aqui... Pessoas se deslocam para cima. O que será que vai acontecer? Vou junto. Este não é o mesmo lugar que eu estive antes! Está tudo
branco. Que luz bonita vem daquelas cortinas. As crianças deram lugar a um espelho. Que belo show de águas... 242 pontos de água. Realmente, é um lugar de luz.

Um pequeno edifício e uma praça. Tudo gira em torno da praça, que se integra ao auditório. Não poderíamos fazer um auditório fechado. Como um espaço coberto e aberto, que pode ser fechado, ele se torna muito mais versátil. Não há espaços fechados
para corredores – tudo se abre para varandas e pátios. Desta forma, além de total independência de usos e acessos, ganha-se em flexibilidade e diminui-se ao máximo os gastos com condicionamento de ar. Escavamos um pouco o terreno, de forma controlada, resolvendo o programa em dois níveis apenas, divididos por uma laje de concreto protendido. O segundo andar - ou um segundo térreo - é metal e vidro. A praça, no andar superior, pode ser transformada com o puxar de cortinas e com uma lâmina de água que aparece quando ligados os 242 esguichos.


Todo o espaço é abraçado pelas atividades da pequena edificação e pelo memorial, que pode se valer também das paredes e vidros externos dos demais ambientes para exposição. A área em pilotis no Térreo, junto com o mural dos nomes das vítimas e as rampas a céu aberto, no andar superior, junto ao mural de grafite, além de marcarem os possíveis acessos, são áreas seguras conforme a Legislação de Incêndio. Ao voltar-se para a praça central e demais pátios, a ideia é tirar a pessoa daquela rua e trazê-la para um lugar de paz, silêncio e vida.

Ficha Técnica

LOCAL: Rua dos Andradas 1925 - Santa Maria - RS
ÁREA: 600m²
PROJETO: 2018
CONSTRUÇÃO: -
CLIENTE: Concurso de Arquitetura

Líder do Projeto:

Autores: Fernando Balvedi, Jean Grivot, Luísa Konzen, Maurício Santos, Luís Bonilla, Bruno de Carvalho, Naiara Forneck 


Equipe do projeto: Pedro Dal Molin, Karoline Düster, Clarel Ely, Daniela Cotta, Leonardo Leles

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